“Todo organismo precisa ser estimulado, e existe um estado ótimo para a estimulação que é determinado biologicamente. Os estímulos influenciam diretamente na adaptação e manutenção do corpo, desencadeando comportamentos e respostas fisiológicas que movimentam os processos de crescimento, aprendizado, tomadas de decisões e percepções sensoriais.” – PUC-Rio, artigo Problemas Sensoriais no Autismo
Uma das características que pontuam como critério diagnóstico para o Transtorno do Espectro Autista no DSM-V é a hiper ou hiporreatividade a estímulos sensitivos ou interesses incomuns por aspectos sensoriais do ambiente. Embora este critério não seja obrigatório para o diagnóstico do transtorno, é nele que se encontra muitas características visíveis comuns ao espectro, tornando certas figuras estereótipos bem marcantes, como por exemplo a imagem de alguém utilizando abafadores industriais ou fones de ouvido com cancelamento de ruídos e óculos escuros.
Reações conflitantes nas percepções sensoriais
Sabe-se que a reatividade ao estímulo sensorial na pessoa autista pode variar de acordo com diversos fatores, como o estágio de desenvolvimento, a familiaridade com o ambiente situacional e as características relacionadas ao transtorno que podem demandar de um suporte específico. Colocando de forma mais simples: O contexto influencia em como a pessoa autista reage ao estímulo, assim sendo, o estado ótimo de estimulação para o autista é variável e individual; e caso este limite pessoal seja excedido, a sobrecarga sensorial desencadeia comportamentos como a evitação do contato visual, distanciamento social, dissociação, rigidez cognitiva com questionamentos incessantes e repetitivos, rituais e estereotipias motoras.
“Minha audição funciona como se eu usasse um aparelho auditivo cujo controle de volume só funciona no ’super alto’. É como se fosse um microfone ligado que capta todo barulho ao redor. Eu tenho duas escolhas, deixar o microfone ligado e ser inundada pelo barulho, ou desligar. Minha mãe conta que, algumas vezes, eu agia como se fosse surda. Testes e exames mostraram que minha audição era normal, mesmo assim não consigo modular os estímulos auditivos que entram por meus ouvidos.” – Temple Grandin
“Eu sou hipossensível aos estímulos olfativos. Isso não quer dizer que eu não sinta o cheiro das coisas, eu sinto, mas na maioria das vezes sou incapaz de processar essa informação. Não consigo relacionar o perfume às pessoas e não sei identificar se uma roupa está imprópria para o uso pelo cheiro, ou se um alimento está estragando. Geralmente os cheiros não me incomodam, porque eu não percebo, mas às vezes eu entro em pânico porque o vizinho usou um tempero diferente na comida e eu pensei que poderia estar acontecendo algo perigoso, como gás vazando ou algo queimando, mas eu não sou capaz de identificar isso sozinho.” – Pedro Anacleto
A pessoa autista pode apresentar reações conflitantes aos estímulos sensoriais por diversos fatores, que envolvem tempo e desenvolvimento do processo de informações através do corpo.
“Não sei como explicar isso direito, mas algumas vezes na vida precisei que alguém me ajudasse a entender o que é agradável para mim e o que não é, e o fato de eu não conseguir perceber essas sensações imediatamente sozinha já me colocou em algumas enrascadas, por exemplo: Não sei identificar de pronto se estou confortável em determinadas situações e/ou com estímulos específicos ligados ao toque físico.” – Flávia Xavier
Apesar dos prejuízos óbvios, os autistas podem ter capacidades brilhantes em relação à forma sentir o mundo ao seu redor, percebendo todos os aspectos ambientais e situacionais de forma gestática (todos os detalhes percebidos ao mesmo tempo, como uma entidade única), ou seja, vivenciam o todo intensamente e cada pedacinho contido dentro dele ao mesmo tempo. Sendo assim, mesmo que as atipicidades persentes no espectro possam tornar a vida muito mais difícil, existe um lugar de conforto no meio do caos. Não há nada mais gostoso para um autista do que poder passar horas cultivando e estimulando seu hiperfoco, poder mover o corpo livremente de formas não convencionais, tocar superfícies de texturas determinadas que causam prazer, observar luzes brilhantes e ouvir a mesma música várias e várias vezes.
A flutuação das percepções sensoriais é esperada, afinal contextos diferentes geram estímulos diferentes. O interesse restrito por algum estímulo sensorial pode trazer prazer, o mesmo estímulo em outro contexto pode trazer pânico. A forma com que uma pessoa autista experiencia as dificuldades impostas pelo transtorno não necessariamente é preto no branco como muitos imaginam. Através dos relatos é possível observar a diversidade nas percepções e o quão conflitantes são em relação aos estímulos.
Estratégias compensatórias, como a camuflagem social e o mascaramento, comuns em qualquer pessoa inserida em um meio social, podem auxiliar a pessoa autista em situações que exigem algum desempenho obrigatório, como as relações sociais no ambiente de trabalho por exemplo, que muitas vezes pedem uma postura mais comunicativa. A mesma pessoa, após passar por uma sobrecarga, pode apresentar comportamento semi-verbal. A reatividade é fluída, assim como as necessidades de suporte de cada autista, de acordo com o contexto e exposição aos estímulos.
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Texto por Pedro Anacleto e Flávia Xavier, com adaptações e referências do artigo: PUC Rio – Problemas sensoriais no autismo.





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