Uma reflexão sobre o meu inferno pessoal, sendo uma pessoa autista

Durante a prática analítica, constantemente me encontro dentro dos infernos pessoais dos analisandos, quando a angústia e o dilema que está sendo processado e trazido à luz da consciência naquele momento me atingem com uma força difícil de explicar, pois aquele inferno, também é o meu.

O inferno pessoal independe do dogma, mas é um lugar insuportável de se estar. Para a pessoa autista, muitas vezes, esse inferno é a ausência de suporte adequado.

Este inferno é experimentado pela maioria dos autistas: receber o diagnóstico tardio, viver o luto deste diagnóstico, mas continuar vivendo sendo tratado como neurotípico, tendo as dificuldades ignoradas e as crises varridas para debaixo do tapete. Muitas vezes recebemos um diagnóstico, mas não temos a compreensão em relação às próprias necessidades de suporte, sendo colocado na pessoa autista a obrigação de se adaptar, se tornando cada vez mais invisível.

O DSM-5-TR fala que o autismo não tira do indivíduo as capacidades de aprendizado e compensação ao longo da vida, mas passar uma vida inteira se adaptando e compensando à normatividade se torna um vício, e com o diagnóstico tardio, a sensação de ser um impostor é sempre intensa. Aprendemos sobre o autismo como uma patologia, pois é assim que a deficiência é vista.

O capacitismo começa pela negação das dificuldades. Se o autismo é invisível, ele não existe, logo, se espera da pessoa autista um comportamento típico. E muitos de nós fazemos um esforço absurdo para manter esses comportamentos. Na solidão, extravasamos do melhor e do pior nas nossas estereotipias e repetições, a autolesão e o sofrimento são sempre potencializados pela necessidade de esconder tudo isso. É solitário e avassalador.

Antes do meu diagnóstico, o inferno para mim era a eternidade da consciência presa num limbo, observando um vazio abissal após a morte. Incapaz de se mover, de se comunicar, de ser visto e compreendido. Hoje penso que esse lugar não é muito diferente do que é viver o autismo e não ter as adaptações e o suporte adequado. Parece que todas as tentativas são frustradas e evitação e dissociação é sempre um lugar que preciso estar.

As vezes eu sinto que com o meu diagnóstico eu entrei em uma espécie de crise que nunca mais consegui sair, eu morri e nasci, e agora estou atingindo alguma maturidade para lidar com o meu transtorno.

Eu não tive mais crises de pânico relacionados ao medo da morte desde o diagnóstico. A ideia ainda me assusta bastante, mas meu inferno pessoal começou a fazer muito mais sentido, pois o autismo não é invisível, ele é invisibilizado.

Já minha ideia de paraíso é o renascimento, algo que todas as mortes simbólicas nos mundos fantasiosos dos videogames podem me oferecer.

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Relato atípico por Pedro Anacleto, autor do blog.

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