Quando as nossas emoções e nossa fisiologia estão bem reguladas, temos mais facilidade para aprender com as outras pessoas e nos relacionar com elas. Um sistema neurológico típico filtra o excesso de estímulos e sinaliza adequadamente quando estamos com fome, cansados ou quando é necessário se proteger de algum perigo. No Transtorno do Espectro Autista (TEA) os desafios emocionais e psicológicos do cotidiano podem ser desproporcionais, tornando essa população mais vulnerável. As sensações de desconforto, ansiedade e confusão são maiores no TEA do que para outras pessoas. E pode ser difícil lidar sozinho com esses desafios e sensações.
Para ser claro, a dificuldade de regulação emocional e fisiológica deve ser vista como uma característica essencial que define o autismo. Infelizmente, há muito tempo os profissionais ignoram essas características, enfocando muito mais nos comportamentos resultantes do que nas causas subjacentes, forçando o paciente autista a se adaptar ao meio desconsiderando os impactos que isso pode causar a longo prazo.
“Os autistas são o pino quadrado por excelência, e o problema de querer encaixar um pino quadrado num buraco redondo não é a dificuldade de martelar; é a destruição do pino.” – Paul Collins
Tendo a capacidade de autorregulação prejudicada, nós, autistas, apresentamos maiores dificuldades na comunicação, ficamos mais sensíveis às imprevisibilidades e estímulos sensoriais do ambiente e nos preocupamos excessivamente com as coisas incertas, graças à rigidez cognitiva. Há também as dificuldades associadas a essas, como a excessiva sensibilidade ao toque e aos sons, perturbações motoras e de movimento, privação do sono, alergias e problemas gastrointestinais. Para algumas pessoas, um histórico de experiências estressantes e traumáticas – combinadas com a viva lembrança dessas experiências – acarreta complicações adicionais.
Essas características e dificuldades podem ser experienciadas pela população neurotípica de tempos em tempos. Qualquer pessoa pode se sentir perturbada porque a sua rotina matinal de café, jornal e banho foi interrompida por um acontecimento inesperado. É comum evitar pessoas e lugares quando os eventos são associados a incidentes desagradáveis ou estressantes. Mas o transtorno não deixa os autistas bem equipados para lidar com esses desafios devido a sua neurologia, tornando o limiar de tolerância muito mais baixo, dispondo de um número menor de estratégias inatas de enfrentamento.
Um exemplo do limiar de desregulação é um adulto autista se sentir confuso ou agitado por encontrar a calçada bloqueada por uma obra em seu caminho habitual entre a biblioteca e sua casa, e, por isso, acaba chegando em casa muito ansioso.
Às vezes a causa da desregulação não é tão óbvia, nem para quem observa a pessoa autista, nem para o autista propriamente dito. É preciso examinar e considerar todas as pistas disponíveis e trabalhar para definir o que está por trás de uma determinada reação e o que a desencadeia. O que está deixando a pessoa desregulada? É algum fator interno ou externo? É algo visível? É sensorial? Trata-se de uma dor, um desconforto físico ou lembrança traumática? Na maioria dos casos a pessoa autista é incapaz de compreender e explicar o porquê com palavras. Por isso, cabe aos que lhe são próximos averiguar as pistas, e aos terapeutas ensinar como lidar com cada situação.
Estratégias de enfrentamento e comportamentos reguladores
O paradoxo mais importante é o seguinte: a maioria dos comportamentos rotulados de “comportamentos autistas” não é sobre deficiências. Trata-se de estratégias que a pessoa usa para se sentir mais regulada dos pontos de vista emocional e fisiológico. Em outras palavras, quando funcionam, são pontos fortes, não pontos fracos.
Existem dois motivos principais para uma pessoa autista apresentar comportamentos estereotipados: ela está revelando algo que pode estar errado e que desenvolveu uma resposta para eliminar ou controlar o que lhe causa ansiedade; ela está revelando uma empolgação e pode ter desenvolvido uma “dança” para expressar essa felicidade.
A função autorregulatória das estereotipias faz com que a “dança” permita a concentração da pessoa em alguma tarefa e até mesmo a aumentar a sua coordenação.
Usar rituais e hábitos de autorregulação é uma característica inerente ao ser humano. É uma habilidade adaptativa, que permite acalmar a mente e o corpo para lidar com situações estressantes. Para os autistas, esses comportamentos podem ser exacerbados e atípicos, como determinados padrões de movimentos e fala repetitiva (ecolalias), o ato de segurar objetos de apego emocional, alinhar objetos ou brinquedos para causar uma sensação de previsibilidade. Até a proximidade com determinadas pessoas pode servir como estratégia de regulação.
O termo stim ou stimming é frequentemente usado pela comunidade autista para designar comportamentos repetitivos de autoestimulação e regulação. Esse termo teve conotações negativas no passado, e, em certas abordagens, ainda tem. Há algumas décadas, muitos pesquisadores tinham por objetivo livrar os autistas de seus estímulos, com o uso de castigos, agressão física e até choques elétricos para eliminar os “comportamentos autistas”.
Graças às boas ideias e à autorrepresentação de muitos adultos autistas, compreendemos agora que os stims têm função autorreguladora: ajudam a pessoa a se sentir com os pés no chão quando o ambiente sensorial está agitado demais ou quando ela se sente ansiosa, com medo ou até entediada. Outros usam os stims porque são agradáveis, divertidos e criativos. E alguns podem, ainda, transformar os stims em peças artísticas que promovem o protagonismo autista.

Quando Leo Kanner definiu os primeiros critérios diagnósticos para o autismo em 1943, ele chamou a atenção para uma característica impressionante das crianças que ele descreveu, nomeada como “insistência na preservação da uniformidade” (uma característica ainda considerada definidora do autismo). Com efeito, muitos autistas procuram autorregular-se controlando seu ambiente ou o comportamento das outras pessoas, visando à uniformidade. Isso não é sintoma de uma patologia. É uma estratégia de enfrentamento.
Os padrões ritualísticos de comportamento no espectro autista também tem função autorregulatória, mas comumente são confundidos com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), mas a finalidade deles é muito diferente. O comportamento que caracteriza o verdadeiro TOC é prejudicial e raramente faz com que a pessoa se sinta melhor. Em outras palavras, a necessidade de lavar repetidamente as mãos ou de tocar em todas as cadeira antes de sair da sala pode atrapalhar as atividades cotidianas, no entanto, quando uma pessoa autista busca usar as mesmas roupas todos os dias ou criar uma ordem visual mediante a organização sequencial de objetos ou eventos, é porque descobriu que essas coisas a ajudam a se regular emocionalmente, e, assim, ela se torna mais capaz de aprender e se relacionar com as outras pessoas.
Mas é importante ressaltar que o acompanhamento da pessoa autista por um Terapeuta Ocupacional pode ser essencial para sugerir modos de estimulação física e sensorial adequados, proporcionando ao autista a compreensão e ensinamento sobre os mecanismos de regulação que não o prejudicam ao longo do tempo.
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Texto adaptado do livro “Humano à sua maneira: um novo olhar sobre o autismo” pg. 36-43.
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