Autismo: como as crises acontecem e seus mecanismos de autorregulação

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Quando pensamos nas dificuldades de comunicação que envolvem o autismo sempre olhamos de uma perspectiva que parte da pessoa autista em direção ao mundo exterior. Outras perspectivas, entretanto, merecem atenção: como as pessoas ao redor compreendem e fazem uso da comunicação em relação à pessoa autista; e como a pessoa autista compreende e faz uso da comunicação em relação a si mesmo. Um dos grandes desafios do transtorno do espectro autista é a comunicação e o compartilhamento de emoções e expressão emocional. Isso ocorre tanto pela dificuldade de compreender as emoções ou nomeá-las corretamente, como é o caso da alexitimia, quanto por uma aparente hiper ou hiporreatividade às emoções e estímulos sensoriais como um todo.

Sobrecarga sensorial e opressão emocional no autismo

O artigo “Alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista (TEA): implicações no desenvolvimento e na aprendizagem” compila estudos que apontam que 95% das crianças com diagnóstico de autismo apresentam algum grau de disfunção no processamento sensorial. Perceber um estímulo sensorial com maior intensidade influencia diretamente na relação da pessoa com o mundo ao redor: sua atenção pode ser prejudicada, tal qual as interações sociais. Uma desregulação sensorial faz com que um simples estímulo, como o toque físico ou a iluminação do ambiente provoque reações como dor e desconforto.

A dificuldade de processar os estímulos sensoriais faz com que alguns autistas se sintam de fato doentes pela sobrecarga, apresentando dores de cabeça, enjoos e suor excessivo. Um ambiente de privação sensorial, como um quarto escuro e silencioso, pode ser fundamental para o processo regulatório.

A opressão emocional é muito frequente no autismo. Seja por experienciarmos as emoções de forma exacerbada, seja por termos dificuldades em nomear ou identificar elas corretamente. Uma crise bastante conhecida no autismo é o meltdown, um colapso provocado pela opressão emocional quando não se é mais possível lidar com os sentimentos ou com as crises sensoriais. Sua manifestação pode parecer violenta, seja através de gritos, da heteroagressão ou do autoflagelo; e também através de crises de choro e reações psicossomáticas.

Uma reação natural do corpo autista para tentar se regular de uma sobrecarga sensorial ou de um colapso emocional, é o distanciamento ou desligamento.

Shutdown: o desligamento como forma de regulação

O desligamento é uma forma de retração e distanciamento do mundo ao redor. Ele também tem função de regulação emocional e sensorial, portanto, é comum que apareça após crises sensoriais e emocionais, tal como mudanças de rotina ou aumento do nível de estresse.

Este comportamento pode se manifestar através de imobilidade, sono excessivo, apatia, dificuldades mais aparentes na comunicação e interação social assim como reações atípicas aos estímulos externos, como hiporreatividade. As funções executivas também são afetadas durante o desligamento, com aumento na rigidez cognitiva e maior dificuldade para executar atividades da vida diária, como alimentação e higienização pessoal.

Em comparação com o meltdown, o shutdown é uma crise invisível e muitas vezes também vem acompanhada de culpa por não estarmos performando atividades previstas em nossa rotina: como trabalhar, estudar ou executar tarefas domésticas. Mas como qualquer crise, ela deve ser identificada e seu momento respeitado para que a autorregulação ocorra e não se torne motivo para entrar num ciclo de opressão emocional.

Formas de autorregulação da sobrecarga no autismo

O aumento de comportamentos repetitivos e estereotipados podem indicar que a pessoa autista está passando por uma sobrecarga e está buscando autorregulação. A desregulação também é evidente quando ocorre uma dificuldade mais aparente na comunicação e interação social (como mutismo seletivo, por exemplo). Durante a desregulação, é comum que a pessoa autista busque o aninhamento, caracterizado pela disposição específica de itens, como cobertores, almofadas, objetos favoritos ou brinquedos sensoriais, concebidos para criar um ambiente acolhedor e relaxante. Alguns autistas entram em padrões de organização e limpeza que podem parecer obsessivos para tentar criar um ambiente mais previsível e se autorregular.

Em suma, a disposição específica de objetos pode dar uma sensação de conforto e previsibilidade, assim como os comportamentos repetitivos podem ter função ansiolítica e reguladora.

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