A lógica da permanência no Transtorno do Espectro Autista

Uma grande parte dos autistas vivem o mundo pela lógica da permanência. Esta lógica representa uma maneira do cérebro de organizar o mundo com o tripé que define a regulação autista: previsibilidade, segurança e constância. O estado atual das coisas pode nos levar à interpretação de que tudo será do jeito como está, mas o mundo não funciona exatamente desta maneira…

Para entendermos a lógica da permanência, podemos olhar para o conceito de permanência do objeto proposto por Jean Piaget ao estudar a psicologia do desenvolvimento cognitivo. Mas antes um adendo: olharemos para o conceito de permanência do objeto como uma analogia e não como uma condição cognitiva que define o autismo, pois não há estudos específicos sobre essa questão em crianças autistas.

Piaget define a permanência do objeto como o processo de compreender que um objeto continua existindo mesmo quando ele não está no seu campo de visão. Embora não seja uma regra, no autismo e outras neurodivergências, o conceito de permanência pode ser interpretado como: o objeto não existe se ele não está no campo de visão, a não ser que algo remeta ao objeto diretamente e ele passa a existir novamente.

A lógica também entra nas molduras relacionais: se uma pessoa deixa de fazer parte de sua rotina, ou seja, se ela ‘sai do seu campo de visão’, é comum não sentirmos a sua ausência de forma típica. Se algo está, ele deve permanecer. Essa lógica pode gerar uma rigidez cognitiva para lidar com mudanças, e, quando a mudança ocorre, pode ser extremamente difícil processar essas informações. Fernanda Luiza, criadora de conteúdo sobre autismo no Threads, descreve a seguinte situação: “quando alguém morre, essa lógica se rompe, mas o cérebro autista pode demorar a entender o que isso significa de fato. A ausência não é registrada de imediato, pode parecer que a pessoa só está demorando para voltar ou que vai aparecer em qualquer momento. Só depois, quando a rotina evidencia o vazio, o impacto vem. E pode vir com crise, regressão, silêncio ou dor física mesmo. É o luto chegando fora do tempo, mas com tudo dentro.”

Se pesquisarmos no Reddit sobre a permanência de objetos e autismo, podemos encontrar relatos como: “Quando alguém está longe da minha presença, meu cérebro simplesmente assume que eles entram em algum tipo de estado de estase até que seja hora de vê-los novamente. É como se eles fossem colocados onde quer que eu os veja em seguida e começassem a cena a partir daí. Não consigo imaginar o que eles fazem consigo mesmos quando não estão na minha presença. Intelectualmente, sei que isso não é verdade, mas acho que em um nível “emocional” (na falta de um termo melhor) eu simplesmente não consigo.”

Do meu ponto de vista, é comum eu ficar semanas sem falar com minha família ou com amigos que sinto a segurança da permanência, pois eles não participam da minha rotina. Mas se alguns dias se passam sem uma interação nova que estava começando a virar rotina, eu penso que o mundo está desmoronando e nada faz sentido lógico, me gerando desconfiança e desregulação.

O conflito é que a lógica da permanência implica na deficiência da confiança. Confiança de que um relacionamento passará por suas etapas de construção de forma adequada e se manterá após isso; de que o mundo continuará sendo o mesmo no dia de amanhã; ou que meu corpo continuará saudável ou doente ao lidar com uma intempérie.

É difícil confiar no mundo sendo autista, mas também é difícil não ser ingênuo quanto ao presente que parece ter a necessidade de permanecer em seu estado para todo o sempre a fim de oferecer o mínimo de previsibilidade. Essa lógica da permanência pode estar presente até para as situações que nos geram desconforto, conflitos e traumas. Os movimentos repetitivos e ritualísticos típicos do autismo são formas de manter a lógica da permanência intacta, dando a sensação de controle e previsibilidade.

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