Inércia autista: explorando as fronteiras entre a mente e o corpo

Inércia é o termo que descreve a primeira lei de Newton – a tendência de um corpo permanecer no mesmo estado – de movimento ou não -, a menos que uma força externa seja aplicada. 

Já a inércia autista é a dificuldades para iniciar, parar e mudar atividades – ações que parecem tão simples, mas que, em muitas vezes, não estão dentro do controle consciente. 

A relação metafórica entre a lei de Newton e a dificuldade para iniciar e parar atividades sem uma influência externa é comumente relatada por pessoas autistas. Dentro da comunidade, há cada vez mais relatos sobre o desejo  consciente da pessoa autista de realizar uma ação ou movimento, mas sendo incapaz de fazê-los..

É importante ressaltar que a inércia autista é um termo genérico, nomeado informalmente pela própria comunidade em relatos na internet que reflete dificuldades distintas entre as pessoas autistas. Por exemplo: a inércia pode ser descrita pela pessoa como dificuldade em iniciar movimentos, seguir instruções e mudar o foco atencional de forma flexível. Outras pessoas podem experienciar a inércia como incapacidade de agir devido ao medo de resultados desconhecidos ou indesejáveis.

Por que a inércia autista ocorre?

O transtorno do espectro autista frequentemente é acompanhado de dificuldades de saúde mental como a ansiedade e a depressão. O desenvolvimento dessas comorbidades está muito associado às dificuldades de compreensão e processamento das emoções, intolerância à incerteza e inflexibilidade cognitiva relatados por adultos dentro do espectro. A depressão leva a perda de motivação e a ansiedade exige da pessoa autista uma necessidade por previsibilidade, influenciando o estado de inércia como um mecanismo de fuga das situações indesejadas e imprevisíveis.

De forma alternativa, as dificuldades de iniciação podem ocorrer devido aos prejuízos na função executiva (habilidades envolvidas no planejamento, memória de trabalho, atenção e inibição), assim como os padrões restritivos e ritualísticos de comportamento e a inflexibilidade cognitiva.

Também é relacionado à pessoa autista dificuldades na cognição social e memória prospectiva prejudicada, ou seja, a dificuldade de lembrar ou realizar as ações planejadas para o futuro.

Como autistas descrevem a experiência da inércia?

Separamos quatro relatos que descrevem experiências da inércia autista, sendo eles classificados por: tendência a manter um estado, falta de controle voluntário, dificuldade de encontrar o primeiro passo e desconexão entre intenções e ações.

  • Tendência a manter um estado: “Quando eu chego no ponto em que eu preciso fazer alguma coisa é como se eu tivesse que parar o que eu estou fazendo, não importa se eu realmente estou fazendo alguma coisa ou não. Mesmo parar de fazer nada é parar de fazer algo”. Este relato é fiel à metáfora da inércia, pois a continuidade de uma atividade (mesmo que ociosa) facilita a permanência deste mesmo estado; interrupções externas interrompem este processo, o que pode ser útil ou prejudicial, dependendo dos desejos da pessoa em relação a alteração do seu estado.
  • Falta de controle voluntário: “Minha cabeça está dizendo todas as coisas certas, como se você se sentisse melhor se fizesse X coisa, ou se você se levantasse agora você seria capaz de realizar aquela atividade que você quer fazer, mas é como se o resto de mim fosse uma criança teimosa.” Juntos, a tendência a manter o mesmo estado e a falta de controle voluntário foram fios que percorreram a inércia e os fatores que a influenciaram.
  • Dificuldade em encontrar o primeiro passo: “É um tornado de coisas passando pela sua cabeça, tentando descobrir como se concentrar em uma coisa e descobrir como escolher uma coisa. Algumas podem ser tarefas para fazer, como lavar as louças ou jogar videogames, outras coisas são o processamento das informações e emoções, tornando muito difícil priorizar o meu foco.” A dificuldade de priorizar algo conscientemente e encontrar um ponto de partida é expressada por autistas como uma condição inerte, sentindo a necessidade de um suporte externo para iniciar as atividades ou definir as prioridades.
  • Desconexão entre intenções e ações: “Algumas coisas eu acho muito difícil descobrir o porquê eu não estou começando, especialmente quando é algo que eu realmente quero fazer, e há apenas um ou dois passos para eu começar a fazer isso, como ligar o videogame ou abrir o livro que está ao meu lado, eu simplesmente não entendo por que isso é tão difícil às vezes.” Essa experiência de desconexão traz três características distintas: sentir-se fisicamente incapaz de se mover, consciência alterada e passividade.

Como os fatores externos afetam a inércia autista?

Na ausência de uma movimentação interna, é comum que a pessoa autista se encontre em uma posição de dependência de um fator externo, como a expectativa de que outras pessoas ajudem no processo de realizar ou inibir uma ação. É comum a pessoa autista relatar que o elemento humano ajuda a estimular e sustentar uma ação, permitindo o espelhamento da ação: ao ver uma pessoa trabalhando em uma tarefa semelhante ou paralela, a pessoa autista é incentivada a iniciar o movimento.

Também é normal a associação com outras influências do meio, como por exemplo a música como um ruído de fundo e outros estímulos sensoriais. Algumas pessoas conseguem utilizar isso como uma forma de sair do momento inerte, mas esses estímulos também são relatados como uma distração problemática para se manter na atividade necessária.

O fator útil mais relatado por adultos dentro do espectro foi a assistência de outra pessoa, no entanto, a influência de outras pessoas também poderia dificultar a realização de uma ação se ela for exigente ou estressante.

Entretanto, obedecer a pedidos simples de outras pessoas parece ser uma forma eficaz de sair da inércia.

A nossa preguiça – que não é preguiça – finalmente tem um nome?

Como já comentado, a inércia autista é um termo criado pela própria comunidade para descrever esses comportamentos – muitas vezes debilitantes – e que nunca foram pesquisados propriamente pela comunidade científica.

É importante reforçar aqui que esta análise somente foi possível pela escuta ativa da comunidade científica dos indivíduos autistas – e não de terceiros que relatam suas impressões das nossas questões.

Quanto mais nos comunicamos, mais nos fortalecemos – e quebramos a inércia científica da falta de protagonismo autista em nossas pesquisas.

Referências: “Nenhuma saída a não ser da intervenção externa”: relatos em primeira mão da inércia autista texto resumido, adaptado e traduzido livremente por Jesse Santiago e Pedro Anacleto para atender aos objetivos do encontro atípico.

Resposta

  1. Avatar de O autismo não me deixa experienciar a vida como eu gostaria – Estudos Atípicos

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